terça-feira, 5 de abril de 2011

Sugestão de Leitura


Nesta Interrupção Lectiva da Páscoa, a BE sugere a leitura da Colecção da autoria de Maria Teresa Maia Gonzalez, a qual nos apresenta uma visão próxima da realidade da sociedade actual.

Propomos que venham conhecer os jovens e as suas peripécias, fruto de uma mudança radical de vida.

Malas e malões


Sexta-feira, 29 de Junho

O inimaginável, o impossível, o ABSURDO aconteceu:

vamos mesmo amanhã para a quinta da avó Matilde!

A decisão foi dos meus pais, claro. SÓ dos pais, como

não podia deixar de ser... «A nossa família não é uma instituição

democrática, porque quem tem a responsabilidade da

decisão final é sempre a minoria: a mãe e eu», lembrou o

meu pai, com aquela cara de filósofo amador que ele faz de

pro pósito para me irritar (coisa em que consegue sair-se tão

bem como um profissional). E eu nem acredito que a minha

vida vai mudar assim, de um dia para o outro, sem que eu

possa fazer NADA!

Os meus irmãos também não podem fazer mais do que

eu para impedir esta tragédia. O Tomás está furioso... Acho

que nos próximos dias (meses?,... anos?...) vai andar insuportável,

mais do que costuma ser (o que pode parecer improvável,

mas não é). Ainda por cima, desde que fez 14 anos

que julga que é um homem! A propósito disto, já lhe disse:

«Adulto não sei se chegarás a ser algum dia, porque não sei

se é coisa que esteja ao alcance do teu cérebro alimentado a

cola gelada e pizas de atum. O que sei é que, para já, a ta9

refa de te transformares num verdadeiro homo sapiens vai

ser muito mais difícil do que para a maioria, simplesmente

porque tu só te ouves a ti mesmo, só te vês a ti mesmo, só

falas a sério com o botão das calças de ganga e és um inculto.

»

Quanto ao meu irmão mais novo, o Salvador, como

ainda só tem 11, pelo menos não tem a mania de que já é um

homem e ainda é possível falar com ele, de vez em quando.

Também não me pareceu propriamente radiante por irmos

viver para uma quinta que fica num lugar minúsculo e tão

in significante que mal se vê no mapa. No entanto, foi o úni -

co que animou os pais, o único que não se revoltou. O Salvador

(embora me custe admiti-lo) é, muitas vezes, o mais

sensato, o mais calmo, o mais racional de nós os três, conforme

a mãe já disse, ainda que não por estas palavras. Por

isso é que ela tem tanto orgulho nele, o que não faz questão

de esconder. Eu também tenho algum orgulho no meu irmão

mais novo, mas nunca me passaria pela cabeça dizer-lho.

Não quero que ele fique um convencido, que rapazes convencidos

já há de sobra...

Voltando ao assunto principal da minha vida neste momento

(sabe-se lá até quando...), eu sei que há coisas que

acontecem sem que tenhamos culpa. Sei isso perfeitamente,

porque sou adolescente mas não sou ignorante. O meu pai

não teve culpa nenhuma de a empresa onde trabalhou tanto

tem po ter falido. Também não tem culpa de ainda não ter

con seguido arranjar outro emprego, porque todos cá em casa

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sa bemos que, há quase 1 ano, ele não tem feito outra coisa

senão responder a anúncios dos jornais e aos que aparecem

na net à procura de um engenheiro com experiência.

Por outro lado, dá para perceber que não podemos continuar

a viver apenas com o ordenado que a mãe ganha na

loja de decoração, apesar de ela ser a gerente.

Sei tudo isto, mas não posso aceitar que tenhamos de ir

viver para a parvónia, para a terra dos bimbos! É uma solução

demasiado injusta! Vou ter de mudar de casa (de

quarto!!!!!), de escola, de vida! E os meus amigos?! Até

quan do continuarão a sê-lo? E as idas ao centro comercial

com a Leonor, a Vera e a Beatriz? E os jantares que fazíamos

no chinês ao pé de casa? E as festas de sábado na garagem

de casa da Leonor? E os meus primos, que vou deixar de ver

por não sei quanto tempo?!

É INDECENTE!

Tenho 13 anos. Não estou preparada para deixar de ser

quem fui até agora e transformar-me numa gata-borralheira

de meia-tigela, remelosa e deprimida, a viver numa vila no

fim do mundo, onde só fui quando ainda andava no jardim-

-de-infância e, depois, só há 2 anos, quando o meu avô morreu.

Aliás, nesse dia, nem chegámos a ir à quinta, porque só

houve tempo para ir à Missa e ao funeral.

Li há uns tempos, numa revista que havia em casa da

Vera, que há crianças e jovens que começam a gaguejar ou

a ter tiques nervosos quando sentem mudanças bruscas na

sua vida. Só me faltava apanhar tiques nervosos!!!!

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Até não me custa perceber que a minha avó, que finalmente

pôde fazer as pazes com o único filho que tem, queira

ajudar-nos, oferecendo-nos um lugar na quinta dela e da

irmã (e que, um dia, será do meu pai). No fundo, é bom saber

que alguém na família quer mesmo apoiar-nos da forma que

pode, mas, apesar de saber isto, é horrível pensar que vou

ter de deixar quase tudo o que conheço para começar uma

vida completamente nova, num lugar onde quase ninguém

me conhece.

Bem, pelo menos, levo-te comigo, diário. Sempre poderei

desabafar quando quiser (e tenho o pressentimento de

que vai ser muito mais do que até este momento)...

Agora, tenho de ir acabar de fazer as malas... Que seca!

Só agora começo a perceber que tenho coisas a mais...

* * *

Para conversarem mais à vontade, Lídia convidara

a cunhada para um café, depois do almoço, em sua

casa.

Em vésperas de partida para o Norte do País, Madalena

não quis deixar de ir despedir-se pessoalmente

da mulher do seu único irmão. O casal estava separado

quase há um ano, mas ainda não se tinha decidido

pelo divórcio. De qualquer forma, Madalena

sem pre se dera bem com Lídia, apesar das diferenças

de feitio, e eram amigas. Não queria que os laços de

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família se perdessem e, mesmo passando a viver lon -

ge, não pretendia de modo algum afastar-se de Paulo,

seu irmão, de Lídia e dos dois filhos de ambos, Sara e

Duarte. A Sara era sua afilhada e tinha 13 anos, como

a Filipa. O Duarte era apenas um ano mais novo do

que a irmã, com quem andava permanentemente em

lutas que nenhum vencia...

— Não sei como consegues estar tão descontraída,

Madalena! Vais mudar muito de estilo de vida, vais

mudar de casa e estás aí com esse ar tranquilo! Eu estaria

à beira de um ataque de nervos...

Madalena sorriu, depois de um gole de café.

— Ora, não serve de nada enervar-me. De resto,

não estou assim tão tranquila como tu dizes. Sei que

vão ser muitas mudanças, sem dúvida.

— Não quero ser alarmista, mas deixares de ter a

tua casa para ires viver na da tua sogra é uma dose de

leão... Eu acho, ou melhor, tenho a certeza de que não

me daria bem.

— A minha casa é onde estiverem o meu marido e

os meus filhos, Lídia. A quinta é grande e a casa também.

Haverá espaço para cada um de nós, sem atropelos.

Claro que vou ter de me adaptar à ideia de que

não serei eu a decidir algumas coisas do dia-a-dia

como por exemplo o que será o almoço ou se está na

hora de mudar o cortinado da sala, mas isso será um

mal menor.

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Lídia ficou pensativa. A cunhada era uma mulher

forte e corajosa. Lembrou-se, então, da situação que

dera origem àquela mudança e perguntou:

— Está mesmo difícil arranjar um emprego, não é?

— O Fernando tem tentado, mas não tem conseguido

nada. Uns dizem que ele tem currículo a mais,

outros pretendem alguém que tenha trabalhado noutro

ramo, outros ainda querem alguém mais novo...

Mas já passámos a fase de nos lamentarmos. Chegou

a hora de mudarmos e, felizmente, abriu-se-nos uma

porta. Uma porta que não podemos desprezar.

— Mas tu mal conheces a tua sogra, não é, Madalena?

O teu sogro viveu metade da vida de relações

cortadas com o Fernando...

— Metade da vida não. Foram nove anos. Nove

lon gos anos... Graças a Deus, fizeram as pazes antes

de ele morrer, o que deixou o Fernando muito alivia -

do. A minha sogra bem gostava que eles se tivessem

entendido mais cedo, mas não foi possível... Acho que

ela também sofreu bastante por não ter podido conviver

com o filho durante tanto tempo. Além disto,

custava-lhe imenso não poder ver os netos crescer,

con forme nos disse, na semana passada, quando o

Fernando e eu fomos lá a pedido dela para conversarmos

sobre tudo isto. E eu acreditei nas palavras

dela. Achei-a sincera e afável.

— Pelo menos agora vai poder estar com os netos!

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Já não são crianças, mas parece-me que ainda vão

apre ciar muito os mimos de uma avó, principalmente

o Salvador, não é?

Madalena riu-se.

— Guloso como ele é, não vai resistir aos doces da

tia Luísa!

— Ah, pois, a tia do Fernando chama-se Luísa. Ela

é mais nova do que a irmã, não é?

— Só dois anos. Fez sessenta e oito, mas tem uma

vitalidade impressionante! Recebeu-nos com um bom

humor que aliviou uma parte do peso que sentimos

nos primeiros minutos naquela sala antiga, cheia de

fotografias a olharem-nos de todos os lados.

— Quer dizer, então, que a quinta dos pais do Fernando

é governada pela mãe e pela tia. Não sei como

se aguentam sozinhas!

— Bem, a verdade é que não estão sozinhas. Ao

lado da casa há uma mais pequena, dos caseiros, um

casal que vive lá com os netos e que dá apoio na

quinta e nos trabalhos domésticos. Por outro lado, a

minha sogra e a irmã estão habituadas a viver na

quinta, gostam do campo, dos animais…

— Desculpa a franqueza, mas parece-me que

aquilo deve ser uma pasmaceira, Madalena...

— De certa maneira é; mas ali há sempre muito

que fazer. No pouco tempo que lá estive, percebi que

aquelas almas não param um segundo, sobretudo a

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tia Luísa e os caseiros. E depois há a vila, que fica

muito perto, nem chega a três quilómetros.

— E que tal é essa vila? Na última vez que falámos,

fiquei com a impressão de que é mais civilizada do

que eu imaginava.

— Bem, de facto, tem havido por lá vários progressos,

segundo o Fernando, que ficou surpreendido

com as novidades que encontrou: um supermercado,

um cineteatro acabado de reconstruir, uma piscina

mu nicipal, uma biblioteca nova...

— E hospital, tem? É que eu não conseguiria ir vi ver

para uma terra sem hospital, levando os meus filhos

comigo! O Duarte já me pregou sustos que só visto!

— Eu sei... Mas a vila tem um centro de saúde.

Claro que para certos exames médicos e intervenções

cirúrgicas mais complicadas é preciso ir ao hospital da

Guarda, que é o que fica mais perto, ou então a Viseu.

Segundo me disse a minha sogra, há lá na vila um médico

muito atencioso que faz consultas domiciliárias

quando é preciso.

— E a escola para os teus filhos? Sempre vão matriculá-

los lá ou vão pô-los no tal colégio da cidade

mais próxima?

— Resolvemos que eles podem perfeitamente continuar

a estudar numa escola oficial. Os colégios particulares

são caros e nem por isso têm professores mais

competentes. É nisto que acreditamos. De maneira

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que o Tomás vai fazer o nono e a Filipa o oitavo na secundária

da vila, que também tem o terceiro ciclo.

O Salvador tem de ir para uma escola mais antiga e

mais pequena que só tem o segundo ciclo, visto que

passou agora para o sexto ano.

— Espero que se adaptem bem às novas escolas...

— Hão-de adaptar-se! São jovens, e os jovens

cos tu mam aprender depressa a lidar com situações

novas. Isso não é coisa que me preocupe, Lídia. A princípio

vão estranhar um pouco, claro, mas acredito que

não terão dificuldades em fazer amigos, sobretudo o

Salvador e o Tomás. A Filipa, como sabes, costuma ser

mais reservada...

— A tua filha ainda vai ser uma poetisa ou uma filósofa

que me há-de encher de orgulho – disse Lídia,

que era a madrinha da Filipa.

— Também acho! Pelo menos, já tem um diário

para ir treinando a escrita...

Lídia fez uma expressão triste e contou:

— Sabes com certeza que os meus filhos vão ter

imensas saudades dos teus... Ontem, a Sara esteve a

choramingar no quarto dela, que eu bem a ouvi de

noite... E o Duarte vai sentir muito a vossa falta, principalmente

do Salvador.

— Eu calculo que sim... É normal ter saudades dos

primos! É, aliás, bom sinal! – exclamou Madalena,

sem pre optimista. – Temos de os ajudar a perceber que

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ninguém tem de deixar de ser amigo por ir morar para

outra terra, não é verdade? De comboio, os teus filhos

podem pôr-se lá em três horas e meia, e a estação fica

a poucos minutos da quinta. Nas férias, tenho a certeza

de que hão-de gostar de ir lá passar uns dias.

Além disto, tenho a certeza de que vão comunicar-se

bastante pela internet... Se já o faziam cá!...

Lídia acenou afirmativamente com a cabeça. Bem

sabia como as palavras da cunhada eram verdadeiras.

Os filhos passavam a vida agarrados ao computador...

— Tira mais uma fatia de tarte, Madalena!

E a conversa prolongou-se um pouco mais. Tão

cedo não teriam oportunidade de um convívio assim...

* * *

Os três irmãos passaram o jantar quase em silêncio

absoluto. Apenas os pais conversaram, procurando

dizer coisas animadoras e lembrando que não era preciso

afligirem-se se deixassem alguma coisa esquecida,

porque o pai teria de voltar à antiga casa, na

se mana seguinte, para tratar de assuntos pendentes.

Só mais tarde pensariam em vender a casa de Lisboa,

porque esse era um assunto que requeria tempo e reflexão.

Na verdade, nenhum dos filhos conseguiu estar

atento ao que foi dito à mesa. Cada um estava metido

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consigo, pensando na viagem do dia seguinte e no que

deixavam para trás... Pensando em tudo o que não podiam

levar nas maletas, malas e malões, como por

exemplo os amigos...

A certa altura, o Tomás saiu da sua concha e,

com um ar profundamente trágico e voz cavernosa,

declarou:

— Espero mesmo que tu e a mãe saibam o que

estão a fazer, porque eu continuo a achar que vai ser

com pletamente impossível viver naquele lugar.

Fernando olhou para ele e, com uma expressão

enigmática, respondeu:

— «Todas as coisas são possíveis para quem se

atreve...»

— Quem foi que disse isso? – quis saber o Salvador,

comendo o último gomo de tangerina.

— Foi Cassius Clay.

— Esse não é um daqueles santos que tu costumas

citar – observou o mais novo da família.

Fernando riu-se.

— Cassius Clay era o nome do maior pugilista de

sempre! O craque dos pesos-pesados! Um colosso!

— Era o nome dele? Já não é?! – estranhou o

Salvador.

— Mudou de nome porque se converteu ao Islamismo.

Quis passar a chamar-se Mohamed Ali.

O Tomás abanou a cabeça.

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— Eu cá, já que vou mudar-me para a Bimbolândia,

acho que também podia mudar de nome – interveio a

Filipa, muito amargamente. – Não é o mesmo que

mudar de religião, mas também é uma mudança radical,

não é verdade? De hoje em diante, podem

começar a chamar-me Migrante, que até soa bem,

não acham? Migrante Neves Dias. Fica giro, não fica?

É tão... original, não é?...

— Vai acabar de fazer a tua mala, Filipa, que és a

única que ainda não terminou essa tarefa – sentenciou

a mãe, para que os ânimos não se exaltassem.

A Filipa obedeceu em silêncio, enquanto o Salvador

pedia para usar o telefone de casa pois queria despedir-

se do primo.

— Outra vez? – perguntou-lhe a mãe. – Mas quantas

vezes é que tu queres despedir-te do Duarte, filho?

Ainda ontem falaste com ele...

— Eu não me demoro muito, mãe – prometeu o

Salvador, enquanto ia buscar o telefone portátil de

casa.

Pouco depois, ao telefone com o primo, o Salvador

desabafou:

— O jantar foi cá uma seca!... Acho que nunca estivemos

calados tanto tempo em toda a vida! No fim,

o Tomás mandou uma boca e a Filipa pôs-se a dizer

que vai ser emigrante ou migrante ou lá o que é, porque

vai viver na Bimbolândia...

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— Bimbo... quê?! – perguntou o primo, rindo-se à

gargalhada.

— Bimbolândia. Foi esta a palavra que ela usou.

Já deves imaginar a cara do meu pai quando a ouviu

dizer aquilo... É que o meu pai viveu lá até aos dez

anos, Duarte...

— O que é uma esperança para vocês, quero dizer:

se ele viveu lá dez anos e ficou normal, acho que tu, a

Filipa e o Tomás não devem desesperar.

— Iá. E nem ‘tou nada desesperado. O Tomás e a

Filipa é que vão desatinar, ou melhor, já desatinaram...

Aliás, a Filipa anda a desatinar por tudo e por nada,

como já deves ter reparado...

— Bem, mas o Tomás sem ondas para surfar vai

mesmo odiar a tal Bimbolândia – comentou o Duarte,

rindo-se. – E lá, por aquilo que o teu pai contou uma

vez, só há uma ribeira, não é?... Não costuma haver

altas ondas nas ribeiras... Quanto à tua irmã, desatina

porque entrou na adolescência. Eu, no ano que vem,

também devo desatinar bastante, porque é a minha

vez de fazer treze. Toda a malta que faz treze anos,

zás!, desatina. É mesmo assim, segundo me disseram.

Deve ter a ver com o número treze... azar..., embora

eu não tenha a certeza de acreditar nessas tretas.

Tu tens sorte: ainda só tens onze.

— Pois, mas, de qualquer maneira, acho que vou

ser sempre mais ou menos como sou agora. Não ten21

ciono mudar muito. O que eu quero dizer é que,

quando fores visitar-me lá à quinta da minha avó, vais

reconhecer-me, não te preocupes. E, por falar nisto,

quando é que pensas poder ir até lá? Estou a contar

contigo já para as férias do Natal!

— Ainda não posso dizer-te nada sobre isso, Salvador.

Mas, como sabes, o Natal tem de ser com os

pais... Ora, como os meus continuam separados, vou

ter de ficar por cá e passar uns dias com cada um

deles, o que é que se há-de fazer?...

— Então isso significa que só vais lá passar uns

dias connosco nas férias da Páscoa? Fogo! Ainda falta

tanto tempo! Se calhar, na próxima vez que te virmos

já tens bigode!

— Espero que não passe assim tanto tempo, meu!...

– disse o primo. Depois, no intuito de o encorajar,

acrescentou: – A gente vai-se mailando para contar

as no vidades, que sempre é mais barato do que o

telemóvel...

— Por falar em mails, espero que o meu pai, quan -

do tiver dinheiro, compre mais um computador para

nós, porque só um para nós os três é sempre aquela

paranóia... Bom, mas agora tenho de desligar, que a

minha mãe não quer que eu demore muito tempo ao

telefone. Acho que ainda tem umas chamadas para

fazer.

— Tchau, Salvador. Boa viagem! Depois, diz qual22

quer coisa sobre como é viver na pré-história: se, por

lá, já descobriram o fogo, se já inventaram a roda...

Pode ser que ainda encontres um ovo de T-Rex debaixo

de um pedregulho bué antigo da quinta e fiques

superfamoso! Sim, porque, com alguma sorte (e tu és

um sortudo), pode ser que descubras um dólmen no

meio das árvores do quintal! Já ‘tou a ver nos telejornais:

«Salvador Dias, grande cientista, dá uma nova

oportunidade a dinossauros»...

— Quem sabe?... Depois, conto-te – respondeu o

Salvador, com um sorriso. – Tchau, Duarte. Dá uns

mergulhos por mim, quando fores à praia.

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